#Coluna do Nobre: Drug Parte II (Capítulo 2)


Margo


Cinco anos depois


Me lembro bem daquela montanha russa me jogando para cima e para baixo em meio a um parafuso, num looping de trezentos e sessenta graus, numa altura de um prédio de vinte andares. Aquela coisa envolvente. Aquele êxtase permanente. O sorriso contínuo nos lábios. O ar soprando no rosto extasiado pela adrenalina, beijado pelo prazer. Me lembro de você ao meu lado segurando minhas mãos geladas de medo. Rindo dos meus gritos histéricos e do frio que sentia na barriga depois daquela queda de noventa graus. Sorria como nunca vendo meus olhos lacrimejarem e das minhas caretas absurdas. Me lembro daquele: vai ficar tudo bem, sabendo que nada daria certo. Afinal olha o tamanho dessa montanha russa.
Minha cabeça adoece ao te ver esquecido, deixado ao fim da tarde mal sorrindo quase vivendo uma morte súbita. Diariamente minha cabeça dói, sobre teu mundo chove, chove as lágrimas deixadas pra trás, chove emoções de saber que tudo foi esquecido.
Espessas lembranças sobre o céu dança, sapateia, tomba garoando momentos, sobre a terra evapora dando continuidade ao ciclo. Memórias vão e memórias vêm. Como a chuva cai na terra e assim evapora voltando a ser chuva.
Seres humanos são esquecidos. Seres humanos aprendem a esquecer. Esquecem por um motivo. Dependem muito se querem crescer.
Tenho medo de chorar por não ter forças o suficiente no final para parar, você espera que eu diga o quê, que realmente ficou tudo bem? Por um lado sim e por outro tudo desmoronou.
"Hoje entendo o sentido da dor, talvez não seja necessário mais cai bem ter noção. Ultimamente nos jornais o que mais se falou foi de mortes de jovens por drogas e olhar aquelas mães chorando me fez querer trocar de canal por não aguentar o peso das noticias. Se sou fraca?, em questão de filho sim, sou fraca, dei tudo a ele e se isso foi bom?" Foi, obvio que foi, dei tudo o que queria ter na sua idade, mas eu o ensinei o certo e o errado. Daí a culpa não cabe mais a mim. Não cabe a ela também e lhe peço desculpas Beatriz. Mais sabe como é, sou mãe, eu ficava olhando e pensando como aquelas mães acordavam no dia seguinte… e… e… e… e como elas respiravam. Agora vejo como é ter seu filho próximo da morte e vi o quanto dói e acredite pensei em morrer junto a ele, não se espante uma hora o tempo me levara então desisti da ideia, porém pensei na ideia que me assustou por que eu seria mãe mais agora sem um filho. 
Foi tudo o que disse para mim e Beatriz assim que nos encontrou no shopping. E partiu sendo consumida pela luz de fim de tarde que cobria o hall de entrada do shopping.
Meu celular toca o crepúsculo se aproximava e ventava forte.
— Alô?
Alexandre acordou do coma depois de uma parada cardíaca. Seus batimentos foram caindo Alexandre foi reanimado pelos médicos, mas por conta da overdose ele ficou com uma sequela no lado do cérebro que matem as lembranças.
Ele não se lembra de nada do que aconteceu. Ele lembra apenas das memórias de quando tinhas seus dezessete antes de conhecer sua noiva. Durante quatro ano ficou numa clinica de reabilitação, tinha alta para sair mais queria afinal não se lembrava de ninguém. Todos desapareceram. E agora preferiu respirar o ar do lado de fora da clinica.
O mundo de Beatriz foi jogado de cabeça para baixo e sacudido freneticamente. Ela precisou se reinventar. Soube bem se virar sem Alexandre, afinal antes dele ela tinha uma vida. Mais Elisa foi dura com minha amiga, ninguém enxergava a necessidade dela fazer aquilo, proibir de Alexandre se lembrar do amor, Elisa o internou durante esses anos na clinica de reabilitação sem direito a visita. Se parar para pensar, somos todos culpados por ele estar desta forma, e por outro lado, não somos culpados porque não somos ele, ou seja, não fomos nós que escolhemos por ele ter uma vida de droga, a escolha veio dele querer ser notado.
Ele só queria ser notado
Toco a campainha.
— Margo, graças a Deus. Por que estou aqui e porque têm fotos minhas com aquela moça lá dentro no porta-retratos na porta da geladeira. Se Amanda ver ela vai acha que estou traindo.
— Como você veio para cá?
— Não sei. Estava frustrado depois de alguns exames, sai do hospital e comecei a perambular pelos quarteirões. Ai o porteiro deste prédio estava trocando o turno de trabalho e me cumprimentou. Entregou a chave em minhas mãos e o numero do apartamento anotou num papel. Ele me disse o nome dessa moça da foto. Só que esqueci…
— Ah, claro, Francisco o porteiro. Vai ficar tudo bem. Agora vamos.
— Quem é ela?
— Ninguém.
— Como eu tiro fotos amorosas com um ninguém, Margo?
— Quer saber quem ela é?
— Sim.
Dei o numero dela pra ele.
— Quer saber tudo. Ligue para esse numero.
— Quem vai estar do outro lado da linha?
— Algumas perguntas terão respostas se você ligar para esse numero.
— Você me promete? — Saímos do apartamento em silencio e descemos o prédio em silencio, deixei sua pergunta vaga e sem resposta. Na calçada do lado de fora do prédio faço sinal a um taxi que passava, antes de entrar me pergunta novamente. — Você me promete Margo?
— Ligue e terá suas respostas.
— Promete ou não.
— Sim prometo.
O táxi descia a avenida quebrando a direita indo para sua casa.
— Alô, sou eu, e sim, ele voltou no apartamento de vocês pela terceira vez e pela terceira vez eu dei o mesmo numero só que até agora ele não ligou. Vale o risco ainda, mesmo?

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