#Coluna do Nobre: Romeo (Capítulo 1)



    Todos sorrindo exibindo a brancura dos dentes os casais juntos com suas alianças cravadas no dedo, era como observar uma casa de boneca na vitrine, pausa para mais uma foto, por favor, perfeição no sorriso, não queira ser analisado pelos críticos do álbum de família. A tia que encontra o mal olhado, o reflexo nos olhos o deixando vampiresco, a indigestão de ter que ouvir sobre o meio sorriso, aquele leve amarelado nos dentes indicava que você fumava ervas plantadas no fim do corredor a direta, e, Flora.
Estouram o champanhe e fim de festa.
Ela saia pelas ruas do bairro desconstruindo as ideias pré-concebidas e as dando novas funções deixando menos perfeitas que soavam; todo fundamento fugia da presença dos pensamentos filosóficos da destruidora dos sonhos. Não tinha nenhum segredo nos seus passos só precisava desconstruir os fatos, precisava construir a versão dos fatos dela, antissocial, compulsiva, mandona, maloqueira quando tem que ser, respirava individualismo, pode parecer uma pessoa totalmente anti a tudo. Mais era como toda mulher precisava ser, confiante. Era como toda Julieta que morria permanecendo para sempre, como debaixo da sacada todos observando cravo discutindo com a rosa, a carruagem de abobora e sapatinhos de cristais, o beijo no caixão de vidro cheio de anões ou de repente caudas verdes se tornando pernas humanas e tapetes que voam, Flora desconstruía os finais felizes encontrando esperanças em lugares inóspitos.
Sinal vermelho.
Atravessou toda aquela pista ziguezagueando ao som potente vindo dos fones, pouco importava o clima, o tempo, se era meio dia ou raiar do dia Flora acrescentava em sua lista de coisas idiotas: que ao caminhar no lugar onde cresceu primeiramente seria preciso desligar-se do tempo e respirar. Chegou ilesa do outro lado da rua. Tomou o caminho rumo à livraria do bairro vizinho, andou preguiçosamente batucando sua bateria imaginaria, fazendo seu cover alto intitulado que lhe custaria um contrato vantajoso com a gravadora mais popular do Brasil — obvio — desconstruiria todo o fundamentalismo da sonoridade optando pelo lado orgânico juntando pedacinhos por pedacinhos da obra. Ele era os seus infinitos. Adorava assistir seus infinitos pela janela traçando uma linha lá e cá dando nomes compostos para cada ponto ligado, nomes desconstruídos, nomes que daria a seu cachorrinho quando casa-se, nome imperfeito.
Comprou um livro de contos que lhe enchia os olhos um dos fatos marcantes para querer compra-lo foi o titulo e como ele soava do seu jeito. Desconstruía o romance televisivo e dramatizava no final. Desmontava a mascara dos bons meninos revelando lobos, cada vírgula do conto, cada cigarro fumado pelo personagem final, Flora queria um bom menino como aquele personagem parvulez da pele parda, gostaria de ser olhada como ele olhava para os lábios vermelhos da amada. Tão de repente Flora viu um livro acabar com toda sua estrutura, se apresentou de uma forma confiante mais se permitiu contradizer, todos reclamam de clichês mais no final são eles que te fazem sorrir.
— Hum… — Retira o palito dos lábios como se estivesse tragando um cigarro. — Boa escolha. — Disse o rapaz novo do caixa.
— Obrigada.
— Quer um?
— O quê?
— Palito.
— Não, obrigada.
— É bom fumar metaforicamente que nem aquele livro das estrelas disse.
— Você fuma?
— Querendo esquecer.
— Esquecer?
— Não.
— Bem, sinto muito.
— É
— É
— É
— Obcervo que há partes em você que são mais escuras do que o vazio da minha mente.
— É
— Tchau.
— Se quiser livros que preencham o vazio da sua mente sabe onde trabalho.
— Tchau.
Flora jurou para si que precisava um dia voltar naquele livraria do bairro vizinho.


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